O facto de David viver num palácio, estando a arca da Aliança depositada numa simples tenda, serviu de pretexto para aquele propor a Deus a construção de um templo. Pela boca do profeta Natan, Deus dá uma longa resposta a David, que analisaremos. Em primeiro lugar, a ideia geral é: «Não és tu [David] que Me construirás uma casa para Eu habitar; o Senhor faz hoje saber que será ele próprio quem edificará uma casa para ti». Deus explicou, então, que se quisesse um templo, tê-lo-ia pedido aos chefes israelitas que antecederam David, o que nunca aconteceu. Pelo contrário, seria Ele próprio a construir uma «casa» a David. Isto é, faz-lhe a promessa de uma descendência fecunda e duradoura. Devemos reparar na beleza desta oposição, casa - edifício / casa - descendência, e no carácter gratuito da dádiva de Deus.
Porém, as palavras com que esta promessa é reforçada, um pouco mais adiante, prestam-se necessariamente a interpretações messiânicas; senão, vejamos.
«Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então suscitarei, depois de ti, um filho teu que nascerá de ti e consolodarei o seu reino. Ele Me construirá um templo e firmarei para sempre o seu régio trono. Eu serei para ele um pai e ele será para Mim um filho. Tua casa e teu reino permanecerão eternamente.»
O texto das Crónicas é concordante, com uma pequena diferença na parte inicial: «Quando se acabarem os teus dias, e te tiveres juntado aos teus pais, levantarei, depois de ti, a tua descendência, um dos teus filhos, e firmarei o seu trono para sempre».
Por curiosidade, tentanto averiguar ab initio a quem se refere em concreto o texto - se a Salomão, se a Jesus -, consultei a versão oficial da Vulgata Latina, a qual refere, para os versículos em causa, «Cumque completi fuerint dies tui, et dormieris cum patribus tuis, suscitabo semen tuum post te, quod egredietur de visceribus tuis; et firmabo regnum eius.» (Samuel), e «Cumque impleveris dies tuos, ut vadas ad patres tuos, suscitabo semen tuum post te, quod erit de filiis tuis, et stabiliam regnum eius.» (Crónicas). Como se constata, ambos os livros afirmam «suscitabo semen tuum post te»; utilizando um dicionário de latim, julgo que uma tradução aproximada poderá ser «farei levantar (erguer-se), do teu sémen (de ti), depois de ti». Mas logo aqui coloca-se uma questão interessante: «sucitabo» pertence ao verbo suscito, avi, atum, que também pode ser traduzido por acordar, ou mesmo ressuscitar. Etimologicamente, suscito provém de sub + cito. O que significa por em movimento, convocar, na descendência de alguém. [verei no dicionário de Latim]
Entretanto, David posseguiu a consolidação externa do seu reino, fazendo um grande número de conquistas importantes, referindo sempre o texto o auxílio divino. É, também, abordado um ajuste de contas entre os gabaonitas e os descendentes de Saul, o que vai por termo a um período de fome em Israel.
Há, ainda, um capítulo do Livro de Samuel que recorda o grande amor que uniu David a Jónatas. De facto, David decidiu procurar algum descendente vivo de Saul, de forma a «fazer-lhe bem por amor de Jónatas». Foi encontrado Mefiboset, um paralítico que já tinha sido referido anteriormente; este foi convidado por David a integrar a sua corte, pelo que ficou a viver no seu palácio. O rendimento das terras que pertenceram a Saul também ficou a reverter para ele. Este pormenor de humanidade de David contrasta com os seus violentos feitos bélicos.